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Receita de Ano-Novo

05/01/2010

Carlos Drummond de Andrade

Para você ganhar belíssimo Ano Novo
cor de arco-íris, ou da cor da sua paz,
Ano Novo sem comparação com todo o tempo já vivido
(mal vivido ou talvez sem sentido)
para você ganhar um ano
não apenas pintado de novo, remendado às carreiras,
mas novo nas sementinhas do vir-a-ser,
novo
até no coração das coisas menos percebidas
(a começar pelo seu interior)
novo espontâneo, que de tão perfeito nem se nota,
mas com ele se come, se passeia,
se ama, se compreende, se trabalha,
você não precisa beber champanha ou qualquer outra birita,
não precisa expedir nem receber mensagens
(planta recebe mensagens?
passa telegramas?).
Não precisa fazer lista de boas intenções

para arquivá-las na gaveta.
Não precisa chorar de arrependido
pelas besteiras consumadas
nem parvamente acreditar
que por decreto da esperança
a partir de janeiro as coisas mudem
e seja tudo claridade, recompensa,
justiça entre os homens e as nações,
liberdade com cheiro e gosto de pão matinal,
direitos respeitados, começando
pelo direito augusto de viver.
Para ganhar um ano-novo
que mereça este nome,
você, meu caro, tem de merecê-lo,
tem de fazê-lo de novo, eu sei que não é fácil,
mas tente, experimente, consciente.
É dentro de você que o Ano Novo
cochila e espera desde sempre
.

De realidades, e sonhos, e enfrentamentos.

15/10/2009

Tenho 21 anos. Foi pouco antes de completar essa idade que Álvares de Azevedo faleceu. Ele morreu com quase 21 anos, e fez o suficiente para ser conhecido, reconhecido, estudado… e para que 157 anos depois de sua morte eu estivesse aqui falando sobre ele.  Eu já vivi 21 anos, e ainda não foi o suficiente para eu ser alguém tão alguém como ele. Mas cada um faz o que deve e pode e consegue fazer no tempo que lhe compete.

O Romantismo não é a vertente que mais me atrai, mas dos poetas românticos… sim, ele é o meu preferido, e pra ser sincera, parece até que eu o conheci. Talvez porque ele era jovem… épocas tão diferentes, mas que me fazem perceber que os jovens são jovens, em qualquer momento, em qualquer lugar. Era isso que eu sentia quando tinha meus 16 anos e lia esse poeta.

Ultimamente, tenho me deparado diversas vezes com a questão do que é ser fraco e do que é ser forte na vida. Pessoas se julgando tão fortes, e julgando outras tão fracas. Às vezes, fraqueza é coragem. Às vezes, é preciso mais força para dar um passo para trás do que para dar dois para frente. Talvez existam coragens e forças diferentes, e isso não quer dizer que uma espécie seja melhor que a outra. As piores batalhas são travadas em silêncio, então nunca se iludam com aparentes resignações ou estagnações, porque isso não diz nada sobre o que uma pessoa é, ou sobre o que ela vai alcançar no final. Nada disso diz se uma pessoa é fraca ou forte, se ela é madura ou imatura. Imaturidade é alguém pensar que já é maduro o suficiente para julgar a maturidade do outro, sendo que ela é relativa, relativa ao tempo, aos sonhos, à vida que cada um leva.

Como eu disse, certas questões são atemporais. Álvares de Azevedo foi julgado muitas vezes como um jovem fraco e entregue aos sonhos, sem força de caráter para viver de verdade, e quem diz isso se apropriou da vida de alguém que nem conheceu, uma apropriação de leitor, apenas. Julgado tão fraco, mas hoje em dia, vejam só, tão respeitado! Será que não somos condenados às vezes pelo mesmo motivo? No livro de literatura que usei para cursar o Ensino Médio, o autor escreveu um trecho sobre o Álvares… uma colocação tão bem feita e tão bonita, que eu penso que deveria ser algo aplicado muitas vezes a qualquer pessoa, mesmo que não tenha sido poeta, sonhado, ou amado na vida: 

“Os alvos são imaginários. Nosso poeta não se entrega ao real. Tem medo de viver. Seu sonho adolescente, porém é mais real que a realidade. Tal superposição foi vista como uma grande fraqueza, com um temor das situações reais. Mas o fato é que esse jovem enfrentou a realidade até demais, e com as armas de seu próprio sonho.”

 Enfrentemos todos as nossas próprias realidades, todos os dias, e com as armas de nossos próprios sonhos. Isso porque o sem importância e simples de um, pode ser o que mantém a vida de outro. O que um faz até de olhos fechados, pode ser a luta cotidiana do outro. Uma mesma realidade se desdobra em realidades diferentes para pessoas diferentes, então não julguemos as realidades, nem as armas, nem os alvos, nem os sonhos, e nem o tempo de cada um. Isso se chama viver. Ou melhor, con-viver. Ser um ser humano, de vez em quando, só de vez em quando, significa, sim, ser um humano. E cada um é ao seu modo. Alguém saberá dizer mesmo qual é o modo certo ou errado?

Despedida

13/09/2009

despedida

E no meio dessa confusão alguém partiu sem se despedir; foi triste. Se houvesse uma despedida talvez fosse mais triste, talvez tenha sido melhor assim, uma separação como às vezes acontece em um baile de carnaval — uma pessoa se perde da outra, procura-a por um instante e depois adere a qualquer cordão. É melhor para os amantes pensar que a última vez que se encontraram se amaram muito — depois apenas aconteceu que não se encontraram mais. Eles não se despediram, a vida é que os despediu, cada um para seu lado — sem glória nem humilhação.

Creio que será permitido guardar uma leve tristeza, e também uma lembrança boa; que não será proibido confessar que às vezes se tem saudades; nem será odioso dizer que a separação ao mesmo tempo nos traz um inexplicável sentimento de alívio, e de sossego; e um indefinível remorso; e um recôndito despeito.

E que houve momentos perfeitos que passaram, mas não se perderam, porque ficaram em nossa vida; que a lembrança deles nos faz sentir maior a nossa solidão; mas que essa solidão ficou menos infeliz: que importa que uma estrela já esteja morta se ela ainda brilha no fundo de nossa noite e de nosso confuso sonho?

 Talvez não mereçamos imaginar que haverá outros verões; se eles vierem, nós os receberemos obedientes como as cigarras e as paineiras — com flores e cantos. O inverno — te lembras — nos maltratou; não havia flores, não havia mar, e fomos sacudidos de um lado para outro como dois bonecos na mão de um titeriteiro inábil.

Ah, talvez valesse a pena dizer que houve um telefonema que não pôde haver; entretanto, é possível que não adiantasse nada. Para que explicações? Esqueçamos as pequenas coisas mortificantes; o silêncio torna tudo menos penoso; lembremos apenas as coisas douradas e digamos apenas a pequena palavra: adeus.

A pequena palavra que se alonga como um canto de cigarra perdido numa tarde de domingo.

☆☆☆

[Essa é uma crônica de Rubem Braga, e foi extraída do livro A Traição das Elegantes. Para as minhas despedidas, e para as despedidas alheias que eu acompanhei de longe ao longo dessa semana… ]

“Quer ser meu amigo? Para sempre?”

24/08/2009

Semana passada, em uma aula de Literatura Comparada, o professor citou um trabalho que ele realizou estudando textos memoriais redigidos em provas de concurso para docente na universidade. Como o próprio nome diz, trata-se de uma espécie de narrativa que o candidato deve fazer a respeito de sua história de vida. O professor constatou em seus estudos que era constante nesses memoriais a presença da descrição do primeiro contato com a literatura, ou com um livro propriamente dito… Sempre expressavam o aspecto da paixão pela área, ali, em um contexto de interesse profissional. Curioso não? Isso me fez refletir sobre os meus primeiros contatos com a literatura: mesmo cursando o terceiro ano de Letras, em nenhum momento parei para pensar em algo assim, e perceber isso me assustou um pouco.

Lembro-me de muitos livros que li na infância; lembro, por exemplo, de como o coração me vinha à boca quando eu lia Pinóquio, e os sustos que levava com o acompanhamento sonoro de uma fitinha laranja da Disney… Mas os livros infantis, ilustrados, são parte de outro tipo de leitura. O primeiro livro que teve real importância consciente para mim foi lido bem mais tarde. Uma vizinha, fazendo uma limpeza no armário de casa, deu-me um apanhado de livros antigos de sua filha; eles apenas mudaram de armário, ficando esquecidos entre outros livros no meu quarto. Até que um tempo depois, arrumando aquele compartimento, sentada no chão, cercada de papéis a serem jogados no lixo e livros espalhados, resolvi pegar um deles: Um Amigo no Escuro. Era um livro de poucas páginas. Abri, li sua epígrafe: “A amizade é o melhor pretexto até hoje inventado para que um indivíduo pretenda tomar parte na felicidade do outro” (Machado de Assis). Sem racionar muito, quando percebi, já estava na terceira página do livro; era um livro em forma de diálogo, que ia engolindo a minha atenção; fui lendo página por página, ali mesmo, no chão, hipnotizada. Uma hora depois, cercada pela bagunça, eu estava no quarto, chorando, aos soluços, diante de uma história tão simples, tão inocente, que me emocionou com seu desfecho. Sim, eu li o livro em uma hora, vertiginosamente, totalmente sem planejar. E essa foi a primeira vez em que chorei lendo um livro sem figuras. Ali apareceu um divisor no meu modo de ler, e o início da minha paixão pela leitura. Era um livro bobo, pequeno, mas a história transmitia coisas que eu jamais vira nos livros infantis, despertava sensações mais complexas, e, dali em diante, todas as vezes que arrumava o meu armário e me deparava com ele, lia esse pequeno livro ali mesmo, novamente. Quantas vezes aquele livro infanto-juvenil foi meu companheiro, quantas vezes eu me senti sozinha e também quis fazer o que uma das personagens centrais fizera ao sentir o mesmo: discar um número ao acaso no telefone, poder compartilhar a solidão que às vezes sentimos naquela idade…

"Um defeito na rede elétrica deixa o bairro sem luz. Nada de movimento, televisão, rock pesado no aparelho de som, nada para se distrair. E Luciana se vê triste e solitária. Só uma coisa funciona: o telefone. Quem sabe fazendo a roleta-russa, ligando um número qualquer, ela encontre alguém com quem possa conversar e até trocar confidências. Romance-diálogo com marcações de teatro."

"Um defeito na rede elétrica deixa o bairro sem luz. Nada de movimento, televisão, rock pesado no aparelho de som, nada para se distrair. E Luciana se vê triste e solitária. Só uma coisa funciona: o telefone. Quem sabe fazendo a roleta-russa, ligando um número qualquer, ela encontre alguém com quem possa conversar e até trocar confidências. Romance-diálogo com marcações de teatro."

Quando eu o li pela primeira vez, era muito nova, e nem ao menos conhecia os nomes de autores consagrados… Em minha pré-adolescência, fui uma leitora assídua de Álvares de Azevedo, e foi grande o meu espanto quando, nessa época, fui reler Um Amigo no Escuro e percebi que o poeta pelo qual Miguel (uma das duas personagens principais do livro) era apaixonado e do qual citou várias poesias ao longo do livro, tratava-se justamente de Álvares de Azevedo. Ou seja, eu já havia lido o garoto, e nem sabia! Enfim, as coisas (e os livros) foram mudando de lugar em minha casa, e fiquei muito tempo sem topar com o meu Um Amigo no Escuro. Até que isso ocorreu há uns meses atrás… Eu me lembrava bem da história em geral, da epígrafe de Machado de Assis, que eu só conheceria e gostaria tanto muito tempo depois desse primeiro contato; mas fato é que eu já não  possuía mais os detalhes da obra frescos em minha memória. Foi então que, relendo as primeiras páginas do livro, tive mais um espanto, mais uma coincidência (?) da qual eu realmente não me recordava… A personagem Miguel havia se formado na faculdade de Letras da Universidade de São Paulo, exatamente a mesma universidade e o mesmo curso que faço hoje em dia. Não acredito em uma influência direta, mas também não acredito em coincidência pura. Não sei que resquício foi deixado em mim por esse livro tão infantil, mas sei que hoje estudo e admiro Machado de Assis, estudo e admiro Álvares de Azevedo, e curso Letras na Universidade de São Paulo. Sei ainda, que com certeza, aquele livro de folhas velhas e despregadas que está no fundo de algum armário, o meu Um Amigo no Escuro, com toda a sua simplicidade, estará presente caso um dia eu precise escrever um memorial do tipo comentado pelo professor.  Na última frase do livro, a personagem Luciana pergunta a Miguel: “Quer ser meu amigo? Para sempre?”. É o que o livro pergunta para mim, e a minha resposta é sim. Ele pode não ter sido o melhor livro que li na vida, nem a primeira grande leitura que fiz, mas foi o primeiro passo de efeito na minha paixão, o meu primeiro amigo, um amigo no escuro.

Toda minha palavra tem um coração onde circula sangue?

17/07/2009

É a primeira vez que crio um site assim. Quando tentei pensar em uma espécie de “título”, não conseguia imaginar algo que fosse ao mesmo tempo neutro (para não me prender a algo específico demais), e que se relacionasse de alguma forma com o que eu quero fazer. Quando fiz meu cadastro no Twitter, a última moda, quis entender por que tantas pessoas se viam atraídas por ele, inclusive eu. Percebi que tal atração não estava verdadeiramente relacionada com a ação, com o “fazer” [What are you doing?], e sim com as palavras… tanto que às vezes ficamos buscando qual palavra seria mais sonora naquele momento para expressar o que estamos fazendo! Foi então que coloquei no meu perfil daquele site: “Toda minha palavra tem um coração onde circula sangue”… É uma frase que está em Sopro de Vida, um livro que Clarice Lispector escreveu pouco antes de morrer. E é a frase que escolhi para colocar aqui também. Cada palavra que proferimos tem vida. Cada palavra é importante na composição em que está inserida, seja ela qual for. E por isso resolvi escrever em um site como esse aqui, com um intuito que não é certo, fixo, com exceção daquele de propagar o caráter da “entidade psíquica de duas faces” (Saussure) que é a palavra, de acordo com o que a vida que há nelas estiver desejando naquele momento. Podem ser minhas, ou não. Pode ser uma baboseira imensa às vezes, porque eu sou bem boba, mas às vezes eu falo sério… Pode ser sobre alguma coisa que aconteceu no mundo, ou no mundo de alguém, ou no meu mundo. Pode ser algo meu, se eu tiver coragem algum dia. Hoje por exemplo, eu quis dar explicações, para que ninguém veja o título e pense que tem sangue nas minhas palavras, ou que eu sou uma gótica com um blog hahahaha… Também é um instrumento de divulgações e contatos, já que a minha vida infelizmente é muito compartimentada, e aqueles que compõem uma parte muitas vezes nem têm conhecimento da outra… Escrever sobre qualquer coisa é muito enriquecedor, e entrar em sintonia com a vida que pulsa nas palavras é ainda mais. Sempre me senti insegura em criar algo assim, pois achava que não haveria importância alguma… mas hoje eu vejo que não preciso sentir isso, pois os pensamentos são nossos, e também são compostos por palavras… por que não  exercitar e compartilhar de alguma forma? Nós criamos a importância do que temos a dividir… e eu sei de mim que, sim, toda minha palavra tem um coracão onde circula sangue. E as suas?