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“Quer ser meu amigo? Para sempre?”

24/08/2009

Semana passada, em uma aula de Literatura Comparada, o professor citou um trabalho que ele realizou estudando textos memoriais redigidos em provas de concurso para docente na universidade. Como o próprio nome diz, trata-se de uma espécie de narrativa que o candidato deve fazer a respeito de sua história de vida. O professor constatou em seus estudos que era constante nesses memoriais a presença da descrição do primeiro contato com a literatura, ou com um livro propriamente dito… Sempre expressavam o aspecto da paixão pela área, ali, em um contexto de interesse profissional. Curioso não? Isso me fez refletir sobre os meus primeiros contatos com a literatura: mesmo cursando o terceiro ano de Letras, em nenhum momento parei para pensar em algo assim, e perceber isso me assustou um pouco.

Lembro-me de muitos livros que li na infância; lembro, por exemplo, de como o coração me vinha à boca quando eu lia Pinóquio, e os sustos que levava com o acompanhamento sonoro de uma fitinha laranja da Disney… Mas os livros infantis, ilustrados, são parte de outro tipo de leitura. O primeiro livro que teve real importância consciente para mim foi lido bem mais tarde. Uma vizinha, fazendo uma limpeza no armário de casa, deu-me um apanhado de livros antigos de sua filha; eles apenas mudaram de armário, ficando esquecidos entre outros livros no meu quarto. Até que um tempo depois, arrumando aquele compartimento, sentada no chão, cercada de papéis a serem jogados no lixo e livros espalhados, resolvi pegar um deles: Um Amigo no Escuro. Era um livro de poucas páginas. Abri, li sua epígrafe: “A amizade é o melhor pretexto até hoje inventado para que um indivíduo pretenda tomar parte na felicidade do outro” (Machado de Assis). Sem racionar muito, quando percebi, já estava na terceira página do livro; era um livro em forma de diálogo, que ia engolindo a minha atenção; fui lendo página por página, ali mesmo, no chão, hipnotizada. Uma hora depois, cercada pela bagunça, eu estava no quarto, chorando, aos soluços, diante de uma história tão simples, tão inocente, que me emocionou com seu desfecho. Sim, eu li o livro em uma hora, vertiginosamente, totalmente sem planejar. E essa foi a primeira vez em que chorei lendo um livro sem figuras. Ali apareceu um divisor no meu modo de ler, e o início da minha paixão pela leitura. Era um livro bobo, pequeno, mas a história transmitia coisas que eu jamais vira nos livros infantis, despertava sensações mais complexas, e, dali em diante, todas as vezes que arrumava o meu armário e me deparava com ele, lia esse pequeno livro ali mesmo, novamente. Quantas vezes aquele livro infanto-juvenil foi meu companheiro, quantas vezes eu me senti sozinha e também quis fazer o que uma das personagens centrais fizera ao sentir o mesmo: discar um número ao acaso no telefone, poder compartilhar a solidão que às vezes sentimos naquela idade…

"Um defeito na rede elétrica deixa o bairro sem luz. Nada de movimento, televisão, rock pesado no aparelho de som, nada para se distrair. E Luciana se vê triste e solitária. Só uma coisa funciona: o telefone. Quem sabe fazendo a roleta-russa, ligando um número qualquer, ela encontre alguém com quem possa conversar e até trocar confidências. Romance-diálogo com marcações de teatro."

"Um defeito na rede elétrica deixa o bairro sem luz. Nada de movimento, televisão, rock pesado no aparelho de som, nada para se distrair. E Luciana se vê triste e solitária. Só uma coisa funciona: o telefone. Quem sabe fazendo a roleta-russa, ligando um número qualquer, ela encontre alguém com quem possa conversar e até trocar confidências. Romance-diálogo com marcações de teatro."

Quando eu o li pela primeira vez, era muito nova, e nem ao menos conhecia os nomes de autores consagrados… Em minha pré-adolescência, fui uma leitora assídua de Álvares de Azevedo, e foi grande o meu espanto quando, nessa época, fui reler Um Amigo no Escuro e percebi que o poeta pelo qual Miguel (uma das duas personagens principais do livro) era apaixonado e do qual citou várias poesias ao longo do livro, tratava-se justamente de Álvares de Azevedo. Ou seja, eu já havia lido o garoto, e nem sabia! Enfim, as coisas (e os livros) foram mudando de lugar em minha casa, e fiquei muito tempo sem topar com o meu Um Amigo no Escuro. Até que isso ocorreu há uns meses atrás… Eu me lembrava bem da história em geral, da epígrafe de Machado de Assis, que eu só conheceria e gostaria tanto muito tempo depois desse primeiro contato; mas fato é que eu já não  possuía mais os detalhes da obra frescos em minha memória. Foi então que, relendo as primeiras páginas do livro, tive mais um espanto, mais uma coincidência (?) da qual eu realmente não me recordava… A personagem Miguel havia se formado na faculdade de Letras da Universidade de São Paulo, exatamente a mesma universidade e o mesmo curso que faço hoje em dia. Não acredito em uma influência direta, mas também não acredito em coincidência pura. Não sei que resquício foi deixado em mim por esse livro tão infantil, mas sei que hoje estudo e admiro Machado de Assis, estudo e admiro Álvares de Azevedo, e curso Letras na Universidade de São Paulo. Sei ainda, que com certeza, aquele livro de folhas velhas e despregadas que está no fundo de algum armário, o meu Um Amigo no Escuro, com toda a sua simplicidade, estará presente caso um dia eu precise escrever um memorial do tipo comentado pelo professor.  Na última frase do livro, a personagem Luciana pergunta a Miguel: “Quer ser meu amigo? Para sempre?”. É o que o livro pergunta para mim, e a minha resposta é sim. Ele pode não ter sido o melhor livro que li na vida, nem a primeira grande leitura que fiz, mas foi o primeiro passo de efeito na minha paixão, o meu primeiro amigo, um amigo no escuro.

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2 Comentários leave one →
  1. Juliana Couto Melo permalink
    27/08/2009 15:23

    Re, partilho com você o amor pela literatura: a antiga, a elitizada, a soberba, a atual. Eu gosto de pegar o livro na mão, de deixar que ele me impressione, que me espante, que me faça chorar ou gargalhar (mesmo quando todos os passageiros do trem acham que sou louca). Que me faça sentir algo. Foram caminhos diferentes os que trilhamos pelo mesmo gosto. Você cursa o 3º ano de Letras na USP; eu, o 4° de jornalismo na Cásper. Mas, temos em comum esse livro: Um amigo no Escuro. E quem me emprestou ele na 8ª série do Ensino Fundamental? Você, Re. Lembra? Partilhamos, também, a admiração por Machado (que também conheci estudando com você, quando li Dom Casmurro para a aula de português da profª Fátima!). Beijos.

  2. 31/08/2009 16:51

    Renata! Não li esse livro que vc leu, conheço a autora e outras obras até, mas me identifquei com vc nesse seu texto! A paixão pela leitura, o livro com figuras, sem figuras, aquela leitura que fica guardada na memória e quando vc menos espera ressurge diante de Alvares de Azevedo ou Machado de Assis! Tive muito disso durante toda a vida, acho que partilho com vc essa experiência, o símbolo dela: um livro.
    Muito lindo e verdadeiro o que vc escreveu, adorei!
    Beijos!

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